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sexta-feira, 28-04-2017
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Biografia

Biografia
                  

José Régio  
[Vila do Conde, 1901 - Vila do Conde, 1969]  

José Régio
Uma das maiores figuras da literatura portuguesa deste século, José Régio, de seu verdadeiro nome, José Maria dos Reis Pereira, destacou-se como ficcionista, como dramaturgo, como poeta, como crítico e ensaísta, como diarista e como memorialista, sem esquecer que foi um exigente professor do ensino secundário, além de obstinado coleccionador de arte popular, sobretudo sacra.

Neste pelouro, o da arte, não seria também despropositado aludir aos inúmeros desenhos a cores que deixou distribuídos por amigos e nos quais muitos dos seus temas, obsessões e fantasmas se revelam de modo saliente e, às vezes, até chocante. Nesta medida, não parece excessiva a afirmação de Manuel Antunes de que Régio «é talvez a figura literária mais completa do século XX».

Feita grande parte da sua educação secundária no Liceu da Póvoa de Varzim e a restante no Porto, José Régio viria a licenciar-se em Coimbra, em 1925, depois de uma prolongada estadia na cidade do Mondego. A tese de licenciatura ali apresentada, As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa, seria reeditada mais tarde, com pequenas alterações, com o título de Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa (1941), depressa se tornando um modelo de síntese luminosa e agudamente crítica de alguma da mais importante poesia portuguesa deste século.

Concluída a licenciatura, irá em 1928/1929 desempenhar no Porto, no Liceu Alexandre Herculano, o cargo de professor provisório, mas, entretanto, durante a sua estadia em Coimbra, mais precisamente, em Março de 1927, lançara, dirigindo-a, com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, a influente revista Presença, que durará 13 anos, até ao seu fecho, em 1940. Revelando uma vocação crítica e pedagógica que faltava aos arautos do Primeiro Modernismo (os do Orpheu), Régio e os seus companheiros (principalmente João Gaspar Simões e, depois, Adolfo Casais Monteiro) irão fazer uma eloquente e crítica apologia da obra de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e António Botto, entre outros, solidificando, perante um público gradualmente menos relutante, reputações que são hoje valores assentes do nosso património cultural. Por outro lado, a Presença revelará valores novos e proporá outros deuses tutelares, que o Primeiro Modernismo ou desconhecera ou achara de somenos inculcar: Freud, Dostoievsky, Proust, Bergson, Gide (este com alguma crescente relutância pela parte de Régio...)

Em Coimbra, faz ainda a sua estreia como poeta, com os hoje célebres Poemas de Deus e do Diabo (1925), logo saudados por alguns grandes nomes como um indiscutível clássico da poesia portuguesa. Arrancando de preocupações alegadamente «pouco modernas» (a luta entre o divino e o humano, o sofrimento redentor e promotor, a dificuldade de convívio, etc.) e associando à pulsão lírica um perturbante e quase perverso dom de análise e de especulação de todo invulgares na nossa literatura, o livro de Régio a um tempo seduzia, se impunha e repelia. E daria, afinal, o mote, para o tipo de relações que iria ser o seu, mais com a crítica do que com o público.

Inteligente, eloquente e incómodo, Régio ficará, para sempre, como uma presença incontornável mas que se gosta de silenciar...

Em 1929 José Régio vai para Portalegre, primeiro como professor agregado, depois, efectivo, aí permanecendo, como professor de francês e de português, no Liceu Mouzinho da Silveira, até 1962, ano em que se reforma, passando a viver parte do ano em Portalegre e a outra parte em Vila do Conde, sua terra natal. Em Vila do Conde viria a falecer em 22 de Dezembro de 1969.

Durante os mais de trinta anos que residiu no Alentejo, Régio produziu uma obra de vulto, em quantidade e qualidade, nos domínios já indicados, a que teria que se acrescentar a sua intensa actividade jornalística, de que resultou um imenso acervo de críticas, cartas-abertas, crónicas, textos de polémica, de que só uma ínfima parte se encontra recolhida em livro. Como já algures foi dito, José Régio, «resolvendo, na sua obra, como fazem todos os artistas autênticos, a antiga e "longa querela" a que aludia Apollinaire, entre a tradição e a invenção, entre a ordem e a aventura, entre o particular e o universal – [...] deixa-nos um exemplo notabilíssimo de integridade artística e humana, de coragem criadora e cívica, de um percurso simultaneamente autónomo e integrado, a par de um exemplo não menos irradiante de inteligência crítica a um tempo cautelosa e finalmente perscrutadora, que ficarão como a melhor garantia da autenticidade do seu amor a uma literatura que profundamente conheceu e acrescentou.»

Quando se fala de José Régio, pensa-se em geral no poeta, esquecendo-se o ficcionista que foi, empenhadamente, ao longo de toda a sua vida, com obras tão assinaláveis e mesmo notáveis como são o Jogo da Cabra Cega (1934) ou as admiráveis Histórias de Mulheres (1946), sem esquecer esse romance poético e profundamente embrenhado na temática mais funda e obsessiva do seu autor, que é O Príncipe com Orelhas de Burro (1942), ou a soma romanesca, A Velha Casa, de que deixou completos 5 volumes e o começo de um sexto (que provavelmente não seria o último) – longo romance de uma aprendizagem, quase uma autobiografia romanceada e essencial para se estudar, por exemplo, o que foi o ambiente de Coimbra, no tempo da Presença.

Igualmente importantes são as facetas do dramaturgo, dos mais impressionantes da história do nosso teatro (desde Jacob e o Anjo, 1940, passando por Benilde ou a Virgem-Mãe, 1947, e El-Rei Sebastião, 1949). Nestas peças retoma temas de sempre, tais o da morte e ressurreição (em seu valor simbólico), o sofrimento como valor de redenção, a auto-superação pela lenta aceitação – com sofrimento – de valores mais altos a que, apesar de tudo, se resiste.

A obra de Régio admite várias leituras de uma grande riqueza, uma das quais pode muito bem ser a de um eloquente e dilacerado relato das dificuldades com que o convívio humano se depara: convívio do homem com os outros homens, consigo próprio e com um transcendente qualquer.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997