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terça-feira, 23-07-2019
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Biografia

Biografia
                  

Augusto Abelaira  
[Coimbra, 1926 - Lisboa, 2003]  

Augusto Abelaira
Romancista, dramaturgo e tradutor. Passou a infância nos Açores. Licenciou-se em Histórico-Filosóficas em Lisboa. Exerceu o magistério por algum tempo e dedicou-se, depois, ao jornalismo, tendo sido director da Seara Nova e da Vida Mundial e cronista de O Jornal e do JL.

No âmbito da chamada geração de cinquenta (Augusto Abelaira, José Cardoso Pires, Fernanda Botelho, Urbano Tavares Rodrigues), a obra de Augusto Abelaira é um exemplo da tranferência do carácter documental, do espaço e personagens rurais e da crença num devir histórico de emancipação – que enformavam o neo-realismo dos anos quarenta – para uma mais aguda consciência da literatura como arte de escrita, para um espaço e personagens urbanos e para uma atitude interrogativa sobre a teleologia da história. Distanciamento crítico e até autocrítico a que não será estranho o furtar das expectativas nascidas do pós-guerra, o conhecimento de algumas das vicissitudes da «socialismo real» e o encontro com o existencialismo.


É precisamente de uma juventude a braços com a fatalidade das suas ilusões frustradas, e que oscila aí entre um pessimismo metafísico e um optimismo hipotético ou de desejo histórico, que nos fala o seu primeiro romance A Cidade das Flores (1959). Enseada Amena (1966) será talvez o romance que melhor resume a primeira fase da obra de A.A., seja nos seus processos estilísticos – a construção dialogante, quase teatral, as personagens estilizadas, de algum modo mais pensantes que viventes, a complexificação temporal –, seja na fixação da sua problemática: a interrogação pelo sentido da história, do quotidiano, da arte, do amor e da morte. É disso que falam incessantemente as personagens deste romance, e o problema da sua má-consciência advém do facto de apenas falarem. Impossibilitadas de agirem politicamente, mas duvidando também de qualquer dimensão utópica de resistência, acabam por renunciar à acção e conformar-se ao auto-retrato do protagonista: um bípede céptico e desinteressado. Entregues assim a um quotidiano vazio, onde se sentem viver por interpostos costumes e valores, mas não podendo renunciar ao apelo quase biológico da Aventura, as personagens abelairianas acabam por descobrir que o único plano de Acontecimento que lhes está ao alcance é o erótico-sexual – daí o seu don juanismo, ainda que auto-irónico, e a consequente problematização do casamento, que atinge em Bolor (1968) um nível de reflexão único na nossa literatura.

O 25 de Abril liberta A.A. da necessidade de um compromisso político em última instância, de modo que a sua crítica do demissionarismo translada-se agora a um plano mais decididamente filosófico, volvendo-se meditação sobre o impasse civilizacional em que vivemos. Depois de o rastrear e reconhecer em Sem Tecto, Entre Ruínas (1978), os romances seguintes tentam circunscrevê-lo segundo uma estratégia que oscila, e muitas vezes combina, o lúcido e o lúdico. Isto é, por um lado sabe-se que a vida não tem sentido e no entanto continua-se a procurá-lo, sabe-se que talvez nada justifique o escrever romances e no entanto continua-se a escrevê-los; por outro, supera-se o que de demasiado agónico poderia existir nessa lucidez, através do riso e do jogo, carnavalizando os saberes e a literatura.

Foi tradutor de elevado nível, p.e. em A História do Mundo, de Jean Duché, na qual preserva cuidadosa e sabiamente a ironia do autor. Foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998