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sexta-feira, 19-04-2019
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Biografia

Biografia
                  

Francisco de Sousa Tavares  
[Lisboa, 1920 - Lisboa, 1993]  

Advogado muito conhecido e cidadão interveniente na vida cívica e política do país, o seu estilo inconfundível de tribuno e polemista exprimia um pensamento original e rebelde.

Fez os estudos secundários em colégios dos jesuítas (La Guardia e Santo Tirso), cujo ensino o marcou profundamente, como o próprio reconhecia. Após uma breve passagem pela Faculdade de Engenharia, licenciou-se em Direito (1945), tendo dedicado a maior parte da sua vida profissional à advocacia.

Um sentido inato de liberdade e justiça animava a sua desassombrada intervenção social e política, tanto antes como depois do 25 de Abril. Em 1958 entrou para a Direcção do Centro Nacional de Cultura (de inspiração monárquica), abrindo-o a sectores da oposição, como no caso de grupos ligados às revistas Seara Nova e O Tempo e o Modo. Aí se reunirá o movimento clandestino «Resistência Cristã» (1965), que teve origem no célebre manifesto dos 101 católicos, de que foi co-redactor e subscritor (com Sophia de Mello B. Andresen, Nuno Teotónio Pereira, Nuno Bragança, Vítor Wengorovius, entre outros).

Participou activamente na campanha do General Humberto Delgado, o que motivou a sua expulsão do Ministério do Trabalho em 1958. Tomou parte na tentativa de derrube do regime conhecida pela Revolta da Sé (11 de Março de 1959). Candidatou-se pela CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática) nas eleições legislativas de 1969. Em finais de 1972, participou na «vigília da Capela do Rato». Foi advogado de defesa de presos políticos do antigo regime. A denúncia frontal e persistente desse regime levou-o por duas vezes à prisão (1966 e 1968).

As linhas mestras do seu pensamento encontram-se na obra publicada em 1960 –Combate Desigual –, a cujos princípios se conservou fiel. O seu espírito independente não era de molde a acomodar-se ao poder estabelecido, fosse ele qual fosse. Assim, também o seu percurso partidário revela um inconformismo e uma imprevisibilidade surpreendentes. Em 1974 entrou para o Partido Socialista. Mais tarde, fez parte do grupo dos Reformadores (1979) e, enquanto membro desse grupo, foi eleito, em 1980, deputado por Évora nas listas do Partido Social Democrata. Nesse mesmo ano, na 5ª. legislatura, voltou a ser deputado também por Évora, integrando agora o grupo parlamentar do PSD. Apoiou, então, a candidatura de Soares Carneiro à Presidência da República. Em 1981 entrou para o Partido Social Democrata, de que viria a ser suspenso do direito de eleger e de ser eleito durante 18 meses, ao dar o seu apoio à candidatura de Mário Soares à Presidência da República (1986).

Foi Ministro da Qualidade de Vida do Governo do Bloco Central, chefiado por Mário Soares (1984). Abandonou, então, as funções de director de A Capital, que vinha exercendo desde 1976. Ninguém ficava indiferente aos artigos de fundo que escreveu durante esse longo período. Segundo Mário Soares, «fizeram escola e exerceram uma indiscutível influência política. Posso afirmá-lo com absoluto conhecimento de causa, pois várias vezes lhes senti os efeitos contundentes e devastadores nos meus Governos» (prefácio a Francisco Sousa Tavares, Escritos Políticos, I, 1996).

De facto, este tipo de intervenção nunca cedeu à facilidade, nem ao efémero do jornalismo. Nele, a urgência da escrita apoiava-se num grande talento e numa cultura sólida. Regressou às colunas dos jornais com uma colaboração semanal no Público (1988), onde, ao denunciar a injustiça feita ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, provocou a ira dos militares. Denúncia tão frontal, que levaria o Supremo Tribunal ao insólito de o julgar já depois da sua morte. Entretanto, colaborava também n' O Independente.

No Diário de Notícias, começou a publicar as suas memórias (1993), onde, a propósito de Sophia de Mello Breyner Andresen, confessa: «Como é do conhecimento geral, fui casado, cerca de quarenta anos, com Sophia e juntos tivemos cinco filhos, lutámos politicamente e atravessámos fases difíceis ou harmoniosas da vida [...]. Ela é sem dúvida uma presença subjacente a quase todas estas Memórias». Infelizmente, estas já não cobrem épocas marcantes do seu percurso, como os anos 60, nem atingem o 25 de Abril. No entanto, no imaginário colectivo, esta data ficaria ligada à figura de Francisco de Sousa Tavares empoleirado numa guarita do Largo do Carmo, junto a um carro de assalto, de megafone em punho, incitando as massas.

Depois da sua morte, parte da colaboração em A Capital e no Público – indispensável para o conhecimento do pulsar de uma época – foi editada em dois volumes: Escritos Políticos, I, Fevereiro de 1996, com prefácio de Mário Soares; Escritos Políticos, II, Dezembro de 1996, com prefácio de António Barreto. Foi agraciado com a Grã Cruz da Ordem da Liberdade em 1990.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998