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Biografia

Biografia
                  

António Alçada Baptista  
[Covilhã, 1927 - Lisboa, 2008]  

António Alçada Baptista
Ensaísta, ficcionista e memorialista.

Formado em Direito, exerceu advocacia em Lisboa entre 1950 e 1957. Em 1961 e 1969 foi candidato pela Oposição Democrática nas eleições para a Assembleia Nacional e, de 1971 a 1974, foi assessor para a Cultura do então ministro da Educação Nacional, Veiga Simão. Funcionário da Secretaria de Estado da Cultura desde 1978, presidiu aos trabalhos da criação do Instituto Português do Livro, de que foi presidente até 1986 e no âmbito do qual incrementou as relações culturais com os países de língua oficial portuguesa, em especial com Cabo Verde, Moçambique e o Brasil, estimulou a criação, o desenvolvimento e a animação do que hoje é a Rede Nacional de Bibliotecas de Leitura Pública, patrocinou a reedição de clássicos da literatura portuguesa e a organização do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, para além de outras acções de promoção da leitura e de apoio à edição e à difusão do autor português, tanto em Portugal como no estrangeiro.

Como responsável pela programação editorial da editora Moraes a partir de 1957, prestara já nos anos 60 e nos primeiros anos da década de 70 um valioso contributo para a revelação ou divulgação de autores hoje seguramente consagrados mas cuja edição era ao tempo de considerável risco comercial: ou porque ainda desconhecidos do público, embora tendo-se afirmado já no seio da geração literária de cinquenta, ou pelas suas posições iconoclastas no quadro ideológico e cultural dominante, ou por ambas as coisas. São os casos, entre outros, de Jorge de Sena, Alexandre O’Neill, António Ramos Rosa, que, reunidos em torno da colecção «Círculo de Poesia», deram novo impulso a uma valorização da palavra poética e marcariam assim, também formalmente, o curso da poesia portuguesa da sua geração e das gerações seguintes; e são os casos daqueles que, como Nuno Bragança com A Noite e o Riso ou Maria Velho da Costa com Maina Mendes, em «Círculo de Prosa» encontraram o corajoso acolhimento a uma ficção que deliberadamente rompia com tabus de uma ordem social acomodada e puderam aí expressar a correspondente linguagem inovadora. Uma colecção de divulgação do pensamento pedagógico mais moderno dava entretanto a conhecer nomes como o de Paulo Freire, ao passo que a colecção «O Tempo e o Modo» e a revista homónima que António Alçada Baptista fundou e dirigiu na sua primeira fase (1963-1969), segundo o modelo da revista francesa Esprit, promoviam a divulgação e o debate de ideias em torno do pensamento católico progressista, nos difíceis anos de combate intelectual anteriores ao 25 de Abril. Aí se traduziram autores como Mounier, Jean Marie Domenach ou Teilhard de Chardin, na linha do personalismo humanista cristão em que se filia uma reiterada preocupação social, teológica e moral característica do conjunto da obra de A.A.B.

É nesse contexto que em 1971 António Alçada Baptista publica o primeiro volume de Peregrinação Interior, que, com o significativo subtítulo: ou quadros da vida quotidiana numa sociedade em vias de desenvolvimento, não deixa de ser hoje uma referência na crise de consciência que em Portugal atingiu diversos sectores intelectuais, durante o fascismo e nos anos subsequentes. Entre o ensaio e a crónica, o memorialismo e a narrativa, caracteriza-o um humor subtil e uma espécie de mansa irreverência na ponderação de valores morais e ideológicos onde o amor, a vida e a morte, antigos interditos e antigas e novas certezas se interrogam numa como que necessária relação com o transcendente e não tanto como mistérios da formação religiosa de que essa interrogação parece provir. Aquilo a que chamou Deus por não encontrar nome melhor (op.cit.) configura-se aí sobretudo como uma muito peculiar forma de melancolia, a suportar essa espécie de carga cultural que a sua escrita simultaneamente integra e exorcisa, na análise das contradições humanas, das relações entre o sagrado e o profano e das relações do homem com a vida.

Uma exigência de equilíbrio estético – que é também da ordem do ético e rejeita a linearidade dos puros racionalismos – acompanha essa aparentemente serena procura de um equilíbrio ideológico e existencial. Embora escrito e publicado cerca de dez anos depois e por isso em contexto político e social muito diverso, o segundo volume de Peregrinação Interior confere unidade e coerência ao primeiro e confirma no Autor o melhor de uma vocação memorialística e narrativa, onde a memória é em boa parte afectiva e a frase tem a cadência natural dos gestos do afecto. «Incomodam-me as linhas rectas e os ângulos» – escreve aí a certa altura, e no entanto não deixa de ser um algo distanciado racionalismo, uma extrema lucidez, o que quase sempre identifica o narrador e, mais tarde, os protagonistas dos seus romances.

É ainda no tom de uma perplexidade cultural que se afirma como romancista: entre os absurdos, ou constrangimentos, de uma ordem social imposta e a proposta de um sistema de relações ideal, Os Nós e os Laços, O Riso de Deus e O Tecido do Outono questionam essencialmente os mesmos temas. E, do mesmo modo que nas suas novelas – em torno de mais contemporâneos núcleos romanescos, como é o caso de Catarina ou o Sabor da Maçã, ou mais evocativos, como Uma Vida Melhor e Tia Suzana, Meu Amor –, a acção dos romances de A.A.B. fundamenta-se estruturalmente em diálogos que correspondem afinal a uma troca do anterior «monólogo evidente por outro meio disfarçado monólogo, repartido pelos personagens» (Manuel Simões, «A Propósito de Os Nós e os Laços», in Brotéria, vol. 122, nº. 3, Março 1986).

A filiação confessa em Alexandre O'Neill («Na recordação do Alexandre O’Neill, com o sussurro da saudade», consta em epígrafe de Tia Suzana, Meu Amor) e em Fernão Mendes Pinto (no caso de Peregrinação Interior) não será aliás ocasional num autor para quem a ternura, a ironia, um muito pessoal conceito de aventura e liberdade, a melancolia e um estilo mais insinuado do que declarado são os instrumentos de uma sempre mesma reivindicação das relações escolhidas sobre as relações naturais e de «uma tentativa de repensar ou organizar antinomias de facto muito embaralhadas no nosso tempo, tais como: "corpo e espírito; natureza e cultura; autonomia e dependência; solidariedade e poder"» (idem, ibidem).

De entre a sua actividade ensaística devem destacar-se, pela originalidade do ponto de vista cultural, os textos sobre Jorge Luís Borges, cujo Relatório de Brodie, aliás, traduziu e prefaciou, e o notável prefácio à 2ª. edição de Nome de Guerra, de Almada Negreiros, intitulado «Nome de Guerra ou um outro Amor em Portugal». Para além de outros textos de comovida evocação de amigos, em A Pesca à Linha: Algumas Memórias (D. Tomaz de Mello Breyner, Rubem Fonseca, Alexandre O’Neill, Jorge Amado, etc); ou, da mesma forma avulsa, por entre as crónicas posteriormente reunidas (António Sérgio, Rodrigues Lapa, António José Saraiva, Fernando Oneto, D. Hélder Câmara, Manuel Vinhas, Almada, José Escada, José Gomes Ferreira, Manuel Mendes, Vitorino Nemésio, Jorge Semprun, Sakharov, Pierre Emmanuel, Edgar Morin, entre muitas outras figuras que de um modo ou de outro participaram na intervenção cívica e cultural, ou na intelligentia do seu tempo).

Foi a partir dos anos setenta que começou a colaborar regularmente com crónicas na Rádio, na Televisão e em diversos jornais e revistas. E é como que a cumprir uma mesma necessidade de comunicação humana – naquela atitude sempre um tanto perplexa, mas displicente e avessa a todas as formas de tensão – e a mesma vocação inicial para um memorialismo intimista, que os últimos livros que publica, sobretudo a partir de A Pesca à Linha, voltam tendencialmente ao ritmo da crónica e da memória. Seja na sua recolha, como quem no revê-las não desiste de uma sistemática interrogação dos comportamentos humanos e dos seus compromissos em sociedade ou face aos apelos subterrâneos de poder; seja nessa outra espécie de registo que é o d' A Cor dos Dias, outra vez errante e outra vez enternecido.

Sócio da Academia Brasileira de Letras, da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Internacional de Cultura Portuguesa, a esse respeito preferiria no entanto que no futuro se dissesse que em cada uma delas teve pelo menos um amigo, não tanto por menor respeito por essas instituições, quanto pelo reconhecimento do carácter pouco académico do que na sua personalidade as levou a afeiçoarem-se-lhe (cf. A Pesca à Linha). Foi ainda presidente da Comissão de Avaliação do Mérito Cultural da Secretaria de Estado e do Ministério da Cultura, administrador e consultor da Fundação Oriente e presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Nesta última qualidade, tranquilamente mas ainda como quem aponta um interdito e obstinadamente reclama uma linguagem da verdade, ficaria célebre, pelo escândalo que causou em todos os quadrantes políticos, a sua intervenção pública por ocasião do 10 de Junho de 1997, no sentido de sugerir a substituição da letra do hino nacional por outra de teor menos guerreiro. O que não o impediria de ser detentor da Grã-Cruz da Ordem de Cristo e Oficial da Ordem de Santiago da Espada, para além de ter sido distinguido com várias condecorações brasileiras.

Por ocasião dos seus oitenta anos, a 29 de Janeiro de 2007, e por iniciativa conjunta dos seus editores e do Centro Nacional de Cultura, foi publicado o volume de homenagem ao A. intitulado António Alçada Baptista – Tempo Afectuoso (coord. de Guilherme de Oliveira Martins e Mª. Helena Mira Mateus). Dele se destacam, pelo testemunho da convivência pessoal, os depoimentos de António Ramos Rosa, Edgar Morin, Eduardo Lourenço, João Bénard da Costa, Jorge Sampaio, Mário de Carvalho, Mário Soares, Pedro Támen e Urbano Tavares Rodrigues.
Centro de Documentação de Autores Portugueses
11/2008