João dos Reis Gomes
[São Pedro/Funchal, 1869 - São Martinho/Funchal, 1950]
Jornalista, professor, crítico e ensaísta, frequentou o Liceu do Funchal e as Escolas Politécnica e do Exército, em Lisboa, onde completou os cursos de engenheiro industrial e da arma de artilharia, vindo a ser depois comandante do artilharia e inspector do material de guerra da ilha. Reformou-se como major em 1939. Em 1900 iniciou também uma longa carreira de docente, primeiro no Liceu do Funchal e em seguida na Escola Industrial, de que foi director.
Paralelamente, agora como jornalista, dirigiu o Heraldo da Madeira e, a partir de 1921, o Diário da Madeira. Membro da Academia das Ciências de Lisboa e da sua congénere brasileira, recebeu da Academia Francesa as palmas académicas, tendo-se escrito, na época, sobre o autor: «É o mais distinto escritor e jornalista madeirense e alguns consideram-no o primeiro crítico de teatro do nosso país.»
Apaixonou-se pelo teatro; além dos dois ensaios sobre fenomenologia dramática publicados em 1905 e 1919 adaptou à cena a sua «novela madeirense» de 1909 com o título Guiomar Teixeira (1912), em que, antecipando-se a certas experiências inovadoras, introduziu cenas de cinema na acção dramatizada, e recolheu as críticas de teatro esparsas por artigos dos jornais de que foi director, no volume Figuras de Teatro.
Devido à sua personalidade, podemos considerá-lo, acima de tudo, como um pedagogo, no sentido amplo do termo, pela vocação didáctica que deixa transparecer na maior parte da sua obra, inclusive a dirigida ao grande público, e temos de salientar essa acção, sobretudo na área do teatro, quer pela pertinência das suas críticas quer pelos muitos volumes a ele dedicados, «notáveis trabalhos lúcidos [...] racionais e disciplinados [...] a que não têm escasseado os louvores justos e merecidos».
Porém, foi eventualmente essa disciplina e racionalidade, própria do seu carácter, o que lhe diminuiu a criatividade no campo da ficção, condicionando-lhe o acesso livre às emoções, que muito raramente deixa perceber na sua espontânea verdade. Grande entusiasta da sua terra, preocupou-se em divulgar lendas, tradições e costumes da Madeira. A sua obra mais importante, A Filha de Tristão das Damas, segue rigorosamente os cânones do romance histórico-romântico, tendo Cristóvão Colombo como uma das personagens principais.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. III, Lisboa, 1994