Daniel Filipe
[Ilha da Boavista/Cabo Verde, 1925 - Lisboa, 1964]
Poeta.
Veio com a família para Portugal ainda criança, concluindo aqui o curso dos liceus. Exerceu várias profissões, incluindo a de jornalista. Funcionário da extinta Agência-Geral do Ultramar, dirigiu então o programa literário radiofónico, na Emissora Nacional, intitulado Voz do Império.
Membro da direcção dos cadernos Notícias do Bloqueio e colaborador da revista Távola Redonda, a sua poesia realizou em breve espaço de tempo uma viragem de noventa graus. Considerado inicialmente «poeta formalista e passadista», por António José Saraiva e Óscar Lopes, foi por estes mesmos filiado numa poesia combativa e comprometida, mercê de uma transformação temática de profundidade. Efectivamente, a sua produção poética ganhou uma actualidade datada, é certo, mas acutilante e repleta de potenciais propósitos de realismo existencial, disciplinado por um circunstancialismo social que se assume nas averiguações da história contemporânea. A sua problemática, da abstracção das tensões líricas tradicionais, intimistas e às vezes bastante devedoras do exotismo tropicalista, ergue-se na experiência do desconforto e da esperança colectivas, projectando-se numa acção ideal de amor humanístico, assim protestante contra o meio ambiente mesquinho e a prática quotidiana que o justifica, autoriza e perpetua.
Poeta assimilado nos anos 60 pela geração contestatária ao regime fascista, a sua poesia possui todavia uma retórica de justificação política situada no espaço e no tempo, tentativa de continuar o projecto estético lançado pelos pioneiros do neo-realismo.
Usou o pseudónimo Raymundo Soares em A Ilha e a Solidão (1957), que recebeu o prémio Camilo Pessanha, em 1956, atribuído pela Agência-Geral do Ultramar.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998