Alice Moderno
[Paris, 1867 - Ponta Delgada, 1946]
Poetisa e jornalista da transição do século nos Açores, de nome completo Alice Augusta Pereira de Melo Maulaz Moderno.
Filha de mãe meio francesa e meio brasileira e de pai português com ascendência madeirense, passou a infância em Paris e em 1875 mudou-se com a família para os Açores, onde residiu até aos 16 anos em Angra do Heroísmo e posteriormente (a partir de 1883) em Ponta Delgada.
Figura ímpar e mesmo excêntrica, assumiu-se, muito nova, como mulher emancipada, em ostensivo desafio aos costumes conservadores da época. Aos 20 anos matriculou-se no Liceu de Ponta Delgada, sendo a primeira menina a frequentar aquele estabelecimento de ensino; depois, foi professora primária e de língua francesa, comerciante, agente de seguros, mulher de negócios e ainda jornalista e escritora.
Orgulhava-se da sua «têmpera» pouco «maleável» e de prover a «subsistência necessária» pelo próprio «trabalho corajoso e enérgico». Viajou com frequência, voltando a França algumas vezes, onde tinha parentes e interesses comerciais.
Na sua obra literária, que abrange todos os géneros, sobressai, pela extensão, a poesia, publicada na maior parte entre 1885 e 1911, e mais significativamente antes do fim do século. Nesse período a poesia açoriana sofreu influência do decadentismo e do simbolismo (ver José de Lacerda, Carlos e Roberto de Mesquita Rodrigo Rodrigues, entre outros), mas o parnasianismo (tal como no continente) ainda atraiu muitos poetas surgidos entretanto e até depois de Alice Moderno (por exemplo, Osório Goulart, o próprio Roberto de Mesquita em parte importante da sua obra, Manuel António Lino, etc.).
Alice Moderno conta-se nesta linha descontados muitos dos versos da adolescência em que persiste o gosto romântico mais convencional e algum fumo de incenso turibulado a Hugo por amor da «mártir liberdade».
Quanto à sua obra de ficção em prosa, Teófilo Braga reconheceu-lhe «sentimento e observação» e a capacidade para «representar o mundo com toda a verdade», considerando o seu romance de estreia (e único publicado) «muito acima do que costumam fazer os nossos rapazes de talento.»
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. III, Lisboa, 1994