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terça-feira, 23-07-2019
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Biografia

Biografia
                  

José Saramago  
[Azinhaga, Golegã, 1922 - Lanzarote, Canárias, 2010]  

José de Sousa Saramago nasceu em Azinhaga, no Ribatejo, no dia 16 de Novembro de 1922, e morreu em 18 de Junho de 2010, em Lanzarote, Canárias.

Em 1924, José Saramago, com dois anos de idade, parte, juntamente com os pais, para Lisboa. Uma infância vivida sem desafogo económico e passada entre Lisboa e a casa dos avós maternos – Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha. Por falta de meios económicos, abandona o Liceu com doze anos e ingressa numa escola de ensino profissional onde, durante cinco anos, aprendeu o ofício de serralheiro mecânico. Ainda que frequentasse um curso técnico-profissional, as disciplinas de Francês e de Língua Portuguesa integravam os planos curriculares e Saramago pôde, assim, iniciar-se no gosto pela leitura. Em 1939, depois de terminado o curso, exerceu durante dois anos a profissão de serralheiro mecânico. Em 1944, trabalhou num organismo de Segurança Social como empregado administrativo. Neste mesmo ano, casa-se com Ilda Reis, de quem viria a ter, em 1947, a sua única filha, Violante. Publica o primeiro romance para adultos – Terra do pecado (1947) –, não voltando a publicar até 1966, ano em que é dado à estampa Os poemas possíveis.

Um ano depois, em 1950, José Saramago passa a trabalhar, como responsável pela produção, na editora Estúdios Cor, o que lhe proporcionou um contacto directo com alguns dos principais escritores da época. De 1955 a 1981, intercalou a sua actividade editorial com trabalhos de crítica literária na revista Seara Nova (1967-68) e de tradução. Em 1969 filia-se no Partido Comunista Português. 1970 é o ano que marca o seu divórcio e a publicação de mais três livros: Provavelmente alegria (poesia, 1970), Deste mundo e do outro (crónicas, 1971) e A bagagem do viajante (crónicas, 1973). Entretanto, em 1971, abandona a editora e torna-se coordenador e editor de um suplemento literário do Diário de Lisboa até 1973. Nos meses que se seguiram à Revolução de 1974, Saramago coordena o FAOJ (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis), sob a dependência do Ministério da Educação. De Abril a Novembro de 1975, desempenhou também funções de director-adjunto no Diário de Notícias, mas foi demitido devido às mudanças operadas pelo golpe militar de 25 de Novembro e que travou o processo revolucionário. Sob a acusação de marxista radical, fica de novo sem emprego e sem perspectivas de o arranjar, resolvendo dedicar-se inteiramente à literatura.

Os finais da década de setenta e toda a década de oitenta ficam assinalados pela publicação de vários títulos, entre eles, Levantado do chão (romance, 1980; Prémio Internacional Ennio Flaiano 1992), Memorial do convento (romance, 1982; Prémio Pen Club 1983 e Prémio Literário do Município de Lisboa 1983), O ano da morte de Ricardo Reis (romance, 1986; Prémio Pen Club 1985, Prémio Dom Dinis 1986, Prémio Grinzane-Cavour 1987), A jangada de pedra (romance, 1986) e História do cerco de Lisboa (romance, 1989). Em 1992, Saramago vê vetada pelo Governo Português a candidatura ao Prémio Literário Europeu do romance O evangelho segundo Jesus Cristo (1991; Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 1991 e Prémio Brancatti 1991) e decide fixar residência na ilha de Lanzarote com Pilar del Río, jornalista espanhola com quem casara em 1988. Nas Canárias, publica a peça de teatro In nomine Dei (1993), que dará origem a um libreto da ópera Divara, com música do conceituado compositor italiano Azio Corghi (1937), estreada nesse mesmo ano em Münster (Alemanha). De resto, foram sete as obras que Saramago viu adaptadas à ópera por este compositor. Com a atribuição do Prémio Nobel de Literatura, em 1998, a obra de José Saramago começa a ser traduzida em várias línguas e a ser adaptada ao teatro e ao cinema. Em 2007, surge a Fundação com o seu nome, sediada em Lisboa, na Casa dos Bicos, apresentando, entre vários objectivos, o de preservar e difundir a literatura portuguesa contemporânea.

Na vasta bibliografia de José Saramago, encontramos livros que se salientam pelas incursões na narrativa de fundo histórico (Memorial do convento (1982), História do cerco de Lisboa (1989), A viagem do elefante (2008)), por investimentos semânticos que configuram as ideias de efemeridade da vida, de eros e thanatos, da busca da identidade e do sentido da existência [Todos os nomes (1997), O conto da ilha desconhecida (1998), O homem duplicado (2002), As intermitências da morte (2005)] de contestação e de transformação social [Manual de pintura e de caligrafia (1977), Objecto quase (1978), A noite (1979), Levantado do chão (1980), O ano da morte de Ricardo Reis (1986), A jangada de pedra (1986), O ano de 1993 (1987), Ensaio sobre a cegueira (1995), A caverna (2000), Ensaio sobre a lucidez (2004)], mas também de denúncia da intransigência religiosa e revisitação de acontecimentos bíblicos [A segunda vida de Francisco de Assis (1987), O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), In nomine Dei (1993), Caim (2009)]. Em suma, releituras de um mundo que não «estava bem» e que, dezasseis anos volvidos sobre o Ensaio sobre a cegueira, continua a estar mal, construídas num tom alegórico e sem condescendências.

Mas encontramos também nas estantes um conto infantil singelo e mágico, direccionado a leitores entre os seis e os dez anos, e esquecido pelo seu Autor desde os inícios da década de setenta – A maior flor do mundo (2001). No conto, observa-se a configuração de uma enunciação discursiva que paulatinamente se afasta daquela que será, inicialmente, a voz do autor textual – a qual, assumindo uma deixis pessoal, confessa a sua incapacidade para escrever histórias para crianças (pois «Além de ser preciso saber escolher as palavras, faz falta um certo jeito de contar, uma maneira muito certa e muito explicada, uma paciência muito grande») – e que se transforma em narrador declaradamente heterodiegético, abandonando todas as marcas discursivas anteriores e instaurando um segundo nível diegético («Dali para diante, para o nosso menino, será só uma pergunta sem literatura: "vou ou não vou?" E foi.»). E, com ele, também nós, leitores, iniciamos essa viagem, atravessamos o mundo todo, chegamos ao grande rio Nilo, recolhemos a água com as mãos, voltamos a atravessar o mundo, e damos de beber três gotas de água à plantinha sedenta, e repetiremos essa viagem «vinte vezes» ou «cem mil», não importa, pois o que interessa é ver «a flor aprumada» a dar «cheiro no ar», é realizarmos algo maior do que nós mesmos.

As ilustrações de João Caetano (v.), em técnica mista – pintura e colagem – valeram-lhe o Prémio Nacional de Ilustração 2001 e ampliam magnificamente os sentidos do texto, demarcando os dois níveis diegéticos ao mesmo tempo que dissolvem regras pragmáticas atinentes ao processo de comunicação literária. Neste caso, a representação pictural da voz discursiva que se apresenta no primeiro nível diegético plasma o autor empírico José Saramago, estatuindo uma relação de identidade. Ainda no que respeita às ilustrações, é também curiosa a primeira imagem, de uma sequência de três, que encerra o livro: o narrador do primeiro nível diegético, sentado à secretária, com um copo vazio, olhando, perplexo, o milagre – a maior flor do mundo –, e testemunhando ser a literatura o lugar de todos os possíveis.

A maior flor do mundo obteve a distinção «altamente recomendado» da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, do Brasil, em 2001. E é «de leitura obrigatória para os adultos», a fim de aprenderem «o que há tanto tempo têm andado a ensinar», como se afirma no paratexto da contracapa.

Em 2007, o realizador galego Juan Pablo Etcheverry transformou este conto infantil numa curta-metragem, utilizando plasticina tradicional 2D. A banda sonora de Emílio Aragón harmoniza-se com a poeticidade do texto.


Bibliografia: A maior flor do mundo (2001), Lisboa: Caminho.

[Ana Cristina Vasconcelos]
05/2013