Henrique Galvão
[Barreiro, 1895 - São Paulo, Brasil, 1970]
Henrique Carlos Malta Galvão nasceu no Barreiro a 4 de Novembro de 1895 e faleceu em São Paulo, Brasil, em 1970. Estudou na Escola Militar, na Escola Politécnica e em França. Oficial do Exército Português, dentre outros cargos que lhe foram atribuídos, desempenhou o de governador da Huíla (Angola) e o de director da Emissora Nacional de Radiodifusão. Organizou comemorações e exposições culturais, de que se destacam o Cortejo do Mundo Português e a Exposição Colonial, em 1934, no Porto. Em Angola, efectuou o primeiro reconhecimento do Cuando, uma viagem de cerca de mil quilómetros em território desconhecido. Amigo pessoal de Salazar, tornou-se adversário do seu regime político por volta de 1952, o que lhe granjeou perseguições e, finalmente, a prisão. A sua fuga e principalmente o assalto ao paquete Santa Maria são episódios marcantes da história política de Portugal nas décadas de cinquenta e sessenta do século XX.
Escritor, dramaturgo e jornalista foi contemplado três vezes com o Prémio de Literatura Colonial da Agência Geral das Colónias. Os temas ultramarinos percorrem toda a sua obra literária.
Às crianças, em especial às «crianças de todas as idades (...) [que o tempo] não consegue matar nem abandonar na alma dos homens», dedica o primeiro Romance dos bichos do mato: Kurika. É a história comovente e vigorosa de um leão criado entre os homens e que um dia se deixa seduzir pelo «apelo enfeitiçante (...) do sertão». Aí aprende a viver na complexa e larga sociedade dos animais da selva africana. Herdeiro do fabulário tradicional, Henrique Galvão distingue-se por um tratamento diverso da personagem animal que desenha com dignidade, realismo e beleza. Segue-se Impala, uma história de amizade entre uma gazela e um elefante, fruto da inesperada e não desejada solidão destes dois animais. O paralelo entre sociedade animal e sociedade humana está sempre implícito e emerge de quando em quando em juízos pouco favoráveis a esta última. Os animais selvagens dão lições de sensatez, dignidade e sabedoria aos «reis da criação». A magia e sedução do continente africano vertem-se em linguagem sensorial, rica em descrição precisa e acção rápida e frequente.
Bibliografia selectiva: Romance dos bichos do mato: Kurika (1944), Lisboa: Liv. Popular Francisco Franco; Romance dos bichos do mato: Impala (1946), Lisboa: Liv. Popular Francisco Franco.
[Maria de Lurdes Magalhães]
02/2012