Eduardo Pitta
[Lourenço Marques (hoje Maputo), 1949]
Poeta, ficcionista, ensaísta e crítico de poesia. Natural de Lourenço Marques, viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Naquela antiga Colónia publicou o primeiro livro, Sílaba a Sílaba (1974), depois de, a partir de 1968, ter colaborado assiduamente em suplementos literários da imprensa: Notícias, A Tribuna, A Voz de Moçambique, Notícias da Beira.
Foi porém em Portugal que a sua obra atingiu a maturidade, primeiro como poeta, depois como ensaísta e crítico de poesia, mais tarde como ficcionista, estreando-se com a trilogia de contos Persona (2000), acerca da qual Fernando Matos Oliveira sublinhou as marcas de género: «ritmo acelerado, narrador autoritário, pathos autobiográfico e sobredeterminação da pulsão erótica.» Estes contos expõem com desassombro o lado oculto da guerra colonial, operando a explicitude da linguagem uma profunda deslocação na escrita do autor. A singularidade absoluta desta obra nas letras portuguesas deriva da forma como articula o universo colonial moçambicano com a prática de uma identidade gay que faz do homossexual um epítome da decadência do Império, numa premeditada atitude de cinismo social que acaba por fazer dele uma figura crítica.
Identificado com a geração dos anos de 1970, o estilo violento e cortante da sua poesia oscila, de acordo com Fernando Pinto do Amaral, «entre narrações muito elípticas, descrições propositadamente estilhaçadas e um certo gosto pelo aforismo [...], recorrendo, no seu movimento pulsátil, a inesperadas associações verbais ou a metáforas cuja agressividade apanha de surpresa o leitor mais incauto.»
Segundo Fernando Cascais, a publicação de Fractura (2003), ensaio sobre homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, «teve o mérito de iniciar […] a um nível de inquestionável qualidade» o debate sobre a existência de literatura gay em Portugal. Sobre o mesmo ensaio, Mark Sabine registou: «the first history of Portuguese literary homosexuality».
Noutro registo, a actividade crítica de Eduardo Pitta ocorre a partir de 1987 e da revista Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, embora a coluna de crítica de poesia «O Som & o Sentido», na revista LER, lhe tenha dado maior visibilidade. Uma selecção de ensaios ali publicados encontra-se coligida no volume Comenda de Fogo (2002).
A obra do autor inclui livros poesia, ficção, ensaio, crítica, memórias, diários de viagem e crónicas, tais como, entre outros, Desobediência, poesia escolhida (2011), os contos de Persona (2000), o ensaio Fractura (2003), o romance Cidade Proibida (2007), a colectânea de crítica Aula de Poesia (2010), o volume de memórias Um Rapaz a Arder (2013) e uma selecção de crónicas reunidas em Pompas Fúnebres (2014).
Do autor, há colaboração avulsa em inúmeras publicações, das quais importa destacar as revistas Colóquio-Letras (1987-2018), LER (1990-2006), Egoísta (desde 2008) e Sábado (desde 2011), os jornais Diário de Notícias (1996-1998) e Público (2004-2011), bem como o jornal online Ciberkiosk (1999-2002). Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês, inglês e hebraico. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Em 2002, organizou para o n.º 6 da revista francesa Arsenal um dossier sobre poesia portuguesa contemporânea. Em 2008 adaptou para crianças O Crime do Padre Amaro, clássico de Eça de Queirós. Em 2008 e 2018 editou a poesia completa de António Botto. Encontra-se representado em volumes colectivos e antologias de poesia. Tem participado em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia.
Em 2021 foi o escritor homenageado na Alvalade Capital da Leitura. A sua obra mais recente é o livro de contos Devastação, de 2021.
Centro de Documentação de Autores Portugueses
11/2020