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sexta-feira, 23-10-2020
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Biografia

Biografia
                  

Mafalda Ivo Cruz  
[Lisboa, 1959]  

contracapa da casa do diabo
«A música embala-me desde o berço, acompanha-me e ajuda-me a abrir caminhos.» Romancista, contista e crítica literária, Mafalda Ivo Cruz nasceu numa família de músicos, no final dos anos 50 – o avô paterno e o pai, maestros e compositores, a mãe, pianista, e os três irmãos, flautista, violoncelista e afinador de pianos. Começou a estudar piano com cinco anos, aos dez entrou para o Conservatório Nacional de Lisboa, onde completou o Curso de Piano, e com 21 anos partiu para Paris, continuando os estudos musicais, recém-casada com o médico psiquiatra Jean-Jacques Valente e com uma bolsa de três anos da Embaixada de França. Até 1998 residiu entre Paris e Lisboa e deu aulas de piano.

Contrariamente à tendência familiar, não se tornou intérprete musical mas sim literária, embora não faça distinção entre a composição estrutural de ambas. «A frase escrita, a frase musical ou a frase plástica são a mesma coisa. Num intérprete treina-se a inteligência da forma. Trata-se sempre de falar, expressar, tornar expressivo, dizer alguma coisa.» A sua escrita convoca todas as artes: nos romances e nos contos de Mafalda Ivo Cruz, a pintura, a fotografia, a dança ou o teatro ocupam um espaço cénico que a música completa, e (re)une. Não por acaso, o título do seu primeiro livro é Um Requiem Português (1995), um piscar de olho a Brahms que termina ao som de Beethoven.

A necessidade de escrever esta obra, classificou-a de «imperiosa e muito antiga». Segundo a autora, as razões que a levaram a retomar um episódio real, emblemático do salazarismo, já contado por duas vezes em ficções portuguesas (Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires e Um Crime Inútil, de Joaquim Paço d'Arcos, a que se junta o testemunho de António Gil, O Drama da Praia do Guincho) foi a vontade de imprimir uma visão feminina ao tema, escrevendo um livro contra o machismo dominante na época em que decorre a acção, «extremamente destrutivo e que tocou toda a sociedade portuguesa».

Retomaria o tema das insidiosas condicionantes mentais do Antigo Regime, reflectidas em equívocos familiares prolongados ao longo de gerações, n' A Casa do Diabo (2000), «a casa colectiva onde habitam memórias, sonhos, frustrações, tudo o que herdamos e tudo o que projectamos». O livro é dedicado à pianista Ana Jacobetty, amiga de infância da autora, e é precisamente pautado por uma nostalgia dos primeiros anos de vida, «o único tempo que vivemos de forma total».

Inicia, entretanto, colaboração em diversos jornais e revistas, como crítica literária, ensaísta ou ficcionista: suplemento literário do jornal Público, Expresso, revistas Rodapé (Biblioteca de Beja), Colóquio/Letras, Livros ou O Escritor (APE). Colaborou ainda no ciclo Vozes e Olhares no Feminino, promovido pela Porto 2001, e no livro colectivo que resultou deste evento, onde figura um pequeno ensaio sobre a autora, da autoria de Maria João Reynaud.


Após a mais recente edição francesa dos diários de Nijinski, que recenseou para o Público, e homenageando em parte a sua avó, que participou em alguns bailados de Almada Negreiros, Mafalda Ivo Cruz escreve O Rapaz de Botticelli (2002, Prémio Pen Clube de Ficção), onde a decadência de um bailarino mítico permite uma série de reflexões sobre a arte e o artista, e os personagens continuam incapazes de travar as espirais de auto-destruição onde se encontram inseridos, por loucura ou vontade própria. Ou, nas palavras de Luís Mourão, «o mundo prossegue, multiplicando-se nas suas histórias e afazeres, mas as personagens de Mafalda Ivo Cruz habitam-no num plano de lucidez extrema.»

Seguiu-se Vermelho (2003, Grande Prémio de Romace e Novela da APE), o seu livro mais trabalhado, muito por «culpa» de uma bolsa de criação literária do IPLB/Ministério da Cultura.

Em 2004, após uma exposição de desenhos de Joana Villaverde («Este Ano»), Mafalda Ivo Cruz escreveu o texto para uma edição conjunta de palavras e imagens, Emma, onde o sangue volta a ser metáfora para a identidade/intimidade feminina. Como escreveu Eduardo Prado Coelho, «esta dor feminina (nunca "feminista") pertence a muitas das personagens de Mafalda Ivo Cruz: mulheres mortificadas, reduzidas a uma certa passividade e distância do mundo, que descobrem que existe uma [...] potência da não-acção» que o ensaísta compara a algumas das figuras centrais da obra de Marguerite Duras ou de Agustina Bessa-Luís.

Escrita fragmentada, muitas vezes baseada na dinâmica criada por triângulos variáveis de personagens, foi já várias vezes classificada de escrita musical. E nas palavras da autora, que procura mesmo ouvir determinados compositores para acompanhar o estilo de escrita que pretende desenvolver, «essa organização mental em que há temas recorrentes, há repetições, há várias vozes, em que há temas secundários e temas principais, foi aquilo com que lidei toda a vida, mais do que com a literatura.»
Centro de Documentação de Autores Portugueses
09/2004