Maria Teresa Horta
[Lisboa, 1937]
Poeta, ficcionista e jornalista.
Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Notada a partir de Poesia 61, embora tivesse já um livro publicado quando o grupo surgiu, cedo se afirmou como uma personalidade avessa a qualquer tipo de obediência. Exemplo disso mesmo tem sido a sua heterodoxa militância feminista.
Celebrizada internacionalmente com a ressonância mediática do conturbado processo judicial que se seguiu à publicação, em 1972, de Novas Cartas Portuguesas – obra inspirada nos amores de Mariana Alcoforado, a lendária freira de Beja –, tornou-se a face visível do feminismo português. David Mourão-Ferreira falou mesmo de «veemente reivindicação em determinados aspectos da condição feminina». Mas, tal como Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa (co-autoras do livro), Maria Teresa Horta nunca hipotecou a obra a essa bandeira, defensora intransigente daquilo a que Camille Paglia chamou de «teoria pagã da sexualidade».
Com efeito, o seu discurso fortemente conotativo, isto é, aberto a múltiplas dimensões de leitura, sejam de ordem emotiva, cultural ou política, resguarda-se quase sempre atrás da figura do autor implicado, conceito de W.C. Booth de acordo com o qual a projecção de um «segundo eu» não deve confundir-se com a do autor ele-mesmo. Isso é muito nítido em obras como Jardim de Inverno (1966), Minha Senhora de Mim (1971) e Educação Sentimental (1975), livros inaugurais de um ideal libertário raras vezes expresso em língua portuguesa, ou mesmo em Destino (1997), que de algum modo dilui essa pulsão transgressora. Mas talvez seja oportuno recordar que a sua escrita ainda hoje problematiza as relações da textualidade com a sexualidade.
Além de poeta e ficcionista, é também jornalista. Podemos dividir essa actividade em três períodos distintos: antes do 25 de Abril, quando coordenou sem preconceito ideológico o suplemento «Literatura & Arte», do vespertino A Capital; depois do 25 de Abril, quando, de 1977 a 1989, chefiou a redacção da revista Mulheres, órgão oficioso do Movimento de Libertação das Mulheres; e, a partir da queda do muro de Berlim, quando começou a publicar quase em exclusivo no Diário de Notícias. Não obstante, colaboração sua, da mais variada índole (poesia, recensão literária, entrevistas, crítica de cinema, textos programáticos, etc.), encontra-se dispersa por outros jornais de referência, casos de O Século, Diário de Lisboa, República, Diário Popular, Expresso, JL e O Diário, bem como por revistas como a Seara Nova, Vértice, Flama, Eva, Cadernos do Meio Dia, Hidra I, Colóquio-Letras, Hífen e Ler.
Faceta menos conhecida é a do seu envolvimento com o movimento cineclubista: dirigiu o ABC Cine-Clube de Lisboa (anos 60 e 70) e é autora, com António Macedo, de Verão Coincidente, curta-metragem inspirada num dos seus mais conhecidos poemas. Da sua episódica actividade de tradutora há que destacar Ópio, de Jean Cocteau. Encontra-se representada na generalidade das antologias de poesia e traduzida em vários países.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. VI, Lisboa, 1999