Morreu, aos 83 anos, António Lobo Antunes, um dos mais importantes romancistas portugueses contemporâneos, cuja obra marcou de forma decisiva a ficção e o pensamento literário das últimas décadas.
Proveniente de uma família da grande burguesia portuguesa, licenciou-se em Medicina, com especialização em Psiquiatria. Exerceu a profissão no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, dedicando-se desde 1985 exclusivamente à escrita. A experiência em Angola na Guerra Colonial, como tenente e médico do exército português durante vinte e sete meses (1971-1973), marcou profundamente os seus três primeiros romances.
Em 1979, publicou os seus primeiros livros, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, seguindo-se, em 1980, Conhecimento do Inferno, todos eles na seminal coleção O Chão da Palavra, da Editorial Vega, então dirigida pelo também escritor João de Melo. Trabalhando o material psíquico que tinha marcado toda uma geração, desfiam-se nestas obras as crises conjugais, as contradições revolucionárias de uma burguesia empolgada ou agredida pelo 25 de Abril, os traumas da guerra colonial e o regresso dos colonizadores à pátria primitiva. Para a literatura portuguesa do século XX, este momento assinalou o início do desencanto no percurso de euforia que se seguiu à revolução e que, de resto, pode ser observado na literatura das décadas seguintes.
Apesar de algum distanciamento inicial da crítica, estes primeiros livros tiveram de imediato grande repercussão internacional, particularmente em França, o que contribuiu decisivamente para a consolidação do seu reconhecimento.
Em termos temáticos, a sua obra prosseguiu com a tetralogia constituída por A Explicação dos Pássaros, Fado Alexandrino, Auto dos Danados e As Naus, onde o passado de Portugal, do período da expansão marítima ao processo revolucionário de Abril de 1974, é revisitado numa perspetiva de exposição disfórica dos tiques, taras e impotências de um povo que foram, ao longo dos séculos, ocultados em nome de uma versão heroica e epopeica da história.
Ultrapassado esse período, tornou-se um dos escritores portugueses mais lidos, vendidos, estudados e traduzidos em todo o mundo. A sua escrita foi progressivamente ganhando densidade e eficácia narrativa, traçando um dos retratos mais exaustivos e sociologicamente pertinentes do Portugal do século XX.
A obra prosseguiu numa contínua renovação linguística e com uma certa aproximação à poesia, com romances como Exortação aos Crocodilos, Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, Que Farei Quando Tudo Arde? ou Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, Sôbolos Rios que Vão, que marcaram de forma decisiva a ficção portuguesa contemporânea.
Até Que As Pedras Se Tornem Mais Leves Que A Água, de 2017, um dos seus últimos romances, marcou um regresso à dimensão fantasmagórica da guerra de Angola como forma de atuação na História.
Autor de mais de três dezenas de romances, António Lobo Antunes foi durante décadas apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, tendo o seu trabalho literário sido distinguido com alguns dos mais importantes prémios literários nacionais e internacionais: o Prémio Ovidio, em 2003, o Prémio Europeu de Literatura, em 2001; o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa, em 2007,entre outros. Em 2008, recebeu, do Ministério da Cultura francês, as insígnias de Comendador da Ordem das Artes e das Letras
Em 2018, foi anunciado que a sua obra entraria na prestigiosa Bibliothèque de la Pléiade, tornando-se no segundo autor português a integrar esta coleção francesa de referência da literatura mundial, depois de Fernando Pessoa, em 2001.
Com a sua morte desaparece uma das vozes maiores da literatura portuguesa das últimas décadas. Permanece uma obra singular, que continuará a acompanhar, a influenciar e a desafiar sucessivas gerações de leitores e de autores.