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A BATALHA DO LYS, 9 de abril de 1918

A BATALHA DO LYS, 9 de abril de 1918
Data :
05/04/2018

Excerto do livro Memórias da Grande Guerra (1919), de Jaime Cortesão.


9 de Abril de 1918

 

Lázaro, ergui-me do sepulcro. Vivo com a frescura de emoções de quem renasce.

Já vejo alguma coisa e dou o meu passeio pelo corredor do hospital.

Mas, porque a minha memória foi profundamente abalada e um véu de sombra me empana ainda os olhos, o mundo e a vida, onde eu reentro, surgem do Cáos, brilham a custo, através de um nevoeiro espesso e primitivo. Não vejo as linhas contornais das coisas e dos seres. Lobrigo apenas manchas paradas e sombras que se movem.

Voltou-me com violência nova o desejo de viver. Consequentemente o interêsse pelas novas da guerra.

Das nossas tropas vem a notícia de mais um raid, realizado com grande valentia. O Américo Olavo consegue levar a sua gente até à segunda linha boche, mas a noite chuvosa, a terra encharcada, e mais do que isso a rápida retirada dos alemães, não lhe dão os felizes resultados que o seu valor merecia.

Com êste é o terceiro grande raid das nossas tropas, pois já antes do Olavo, o Capitão Vale de Andrade realizára uma incursão às linhas inimigas com muito e feliz arrôjo.

De tôda a parte chegam sinais de que a luta se intensifica. Espera-se, a cada hora, que a ofensiva alemã, iniciada na direcção de Amiens se generalize a outros pontos da frente.

Mas, − coisa inevitável, − os nossos soldados, começam a revoltar-se. Sim, inevitável. Pois se de Portugal não mandam reforços e nos esquecem, e os altos comandos, sem a coragem de protestar por todas as formas contra êsse desprezo, fazem todos os dias aos soldados promessas de descansos e licenças que nunca chegam, e exigem dalguns milhares de homens o dolorosíssimo esforço, que nos outros exércitos se distribui por centenas de milhares, que menos se poderia esperar?

O desfalecimento, a exaustão, o desespêro atingiram o auge nas nossas fileiras.

Hoje emfim as nossas tropas da frente vão ser rendidas em massa. É uma deslocação total para a rectaguarda. E como não há portugueses para essa rendição, o nosso pequeno sector vai cair em mão dos ingleses, ficando nós sem um soldado nas linhas!

Eu estou no Hospital das Doidas, em St. Venaint, numa grande parte do qual se improvisou o nosso Hospital de Sangue nº. 2. É um vasto conjunto de casas apalaçadas, dispersas num grande parque, em cêrca.

Há ali algumas centenas de mulheres loucas.

Às quatro da manhã, deitado na minha cama, acordo ao trovão estupendo de uma granada de 31 ou 38, estoirando próximo. O alto e vasto edifício baila sôbre os alicerces, e os grandes estilhaços, como bolidos incendiados, rugem e sibilam, sinistros, cortando as paredes e os telhados. Depois outra. E não param. De espaço a espaço, um abalo fundo de terramoto e o espadanar estrídulo da metralha. Para as linhas um rebentar de tempestade oceânica raiva, furibundo. O coração aperta-se à lembrança dos que andam àquela hora sôbre as altas ondas de fogo e terra.

Quási todos os doentes, que podem levantar-se, vagueiam de luz acesa pelo hospital. Médicos e enfermeiros, tudo se ergueu. O trovejar da planície enche as almas de assombro. Só quando dealba a manhã, e as primeiras grandes novas chegam, eu e o Frazão nos erguemos.

Às dez da manhã sabe-se já que os alemães, numa ofensiva de grande estilo, cuja largueza é por enquanto difícil de avaliar, romperam as nossas linhas e avançam.

Os feridos entram constantemente.

As faces andam pálidas. A batalha aproxima-se. Aumenta o seu marulho tonitruante. As novas que chegam rasgam a cada passo o âmbito da tragédia.

A larga cêrca do hospital povoou-se pouco a pouco de vultos, clamores e autos, ofegando.

Chego à janela: uma turba que a bruma do dia afunda, invadiu as ruas do parque e a antiga solidão de grupos gesticulantes, acampamentos de acaso, de mantas, máscaras, mochilas e armas, abandonadas sôbre a relva dos talhões. Mais e mais grupos entram. Uma ambulância automóvel desliza lentamente e pára em baixo à porta. Do fundo, com vagar, saem em braços volumes humanos, as cabeças e os membros, as cabeças e os membros descaídos. Os meus olhos, cuja névoa de sangue deixa apenas entrever as cousas, desta distância enxergam tudo aquilo em sombras moventes.

Com o giro das horas inunda-se o parque, a turba vem às ondas e reflui té se afogar nas casas e nas áleas, e cada vez mais o rumor, que exala, me inquieta e afflige.

− Vai encher-se tudo com feridos, − dizem.

Resolvo então ir ajudar os camaradas, que lá em baixo se estenuam na faina cirúrgica. Esqueço a minha trémula convalescença e desço, agarrado ao corrimão, as escadas que levam à cirurgia. A meio do último lanço chega-me, lá do fundo dos vastos salões, um bafo quente de fornalha e um borborinho confuso.

Entro na primeira estância: regorgita de feridos, lançados em macas, a esmo, sôbre o ladrilho do chão, de lés-a-lés. Ao primeiro relance lobrigo apenas, lançada por terra, a massa azul-cinzenta das fardas, manchada de lama e sangue.

Ouve-se um remexer dorido, gemidos baixos, rouquejos. E logo, distintamente, salta-me aos olhos a visão dum grupo trágicamente imóvel, ali ao pé, rente a mim, e à orla do amontoado humano: é um padre que reza, ajoelhado, as orações da última hora, dobradosôbre um vulto estendido e inerte com uma faca branca e fria de gelar. O meu olhar, que sai da escuridão recente, ao encontrar-se de novo com o Mundo, cerra-se aflito e atónito.

Para seguir às salas da frente é mister entrar num cortejo de soldados, sopesando em macas multidões humanas. Ali trabalham sem descanço três équipes de operadores.

Lançados ao acaso sôbre as macas, os feridos de mais gravidade esperam a sua vêz. Um cheiro pesado e morno a éter, sangue e entranhas violadas entontece e engulha. À beira dêste ou daquele pingam nascentes de sangue. O chão é todo manchado pelo rio vermelho da vida que extravasa. Oh! Mas êste odôr a matança é intragável. Paro, hesito. Não, não posso. É demais para as minhas fôrças débeis. E depois êstes gritos!... Alguns psalmodiam queixas lúgubres. E, a espaços, forma-se um côro desgarrado de apelos e uivos, como de reses mal abatidas.

Um homem com a cara côr de chumbo e lama, sacode no ar um côto de braço empanado, todo rútilo de sangue, e implora, uivando:

− Não me deixem morrer! Tenham pena de mim!

Ali, para um canto, caiu uma horrível massa humana ensanguentada e informe; não se lhe vê a cabeça, todavia aquilo geme numa suprema despedida, muito baixinho, de cortar o peito:

− Ai! minha rica mãezinha! – como um degolado, cuja voz, tão sentida é, nascesse do próprio coração.

E a um dos lados, contra a parede, alçou-se agora da sua maca um vulto lívido, numa palpitação de fantasma, olhou de longe e à volta com duas brasas nos olhos, mexeu os lábios, quis dar um passo e recaiu pesadamente.

Vou tentar um esfôrço. A piedade galvanizou-me e dirijo-me a um dos médicos:

− Dê-me também que fazer.

Mas o odôr e a vista da carnagem acabam de vencer-me. Cambaleio, fecho os olhos, descaio contra a parede.

− Não, você, − diz-me êle, − não póde ficar aqui, suba à enfermaria dos oficiais e, se quere, dê os primeiros socorros aos gaseados.

Saio; e resolvo não olhar aos lados, no receio de cair ao chão. Não obstante, aquela visão palpita à minha volta, já se esvanece, logo se aclara, numa lenta espiral de gestos e manchas de crúor. Vou à tôa; os sentidos tacteam.

Tropeço num vulto que está de bruços no chão. E, ao seguir no corredor, alguêm, que passa sôbre uma maca alta, chama pelo meu nome, numa voz passada de lástima e dôr. Volto-me e, quási na frente, uma cara marfínea, aberta em fundos de agonia, coalha dois olhos glaucos contra mim. Fito, atónito, aquele rosto de espectro, sem atinar quem seja.

E a voz volta, carinhosa, esmolando já de longe:

− Não se lembra?!

− Não me lembro.

Revolvo cá dentro a memória atorpida; mas em vão. Tento sacudir êste marasmo: tudo inútil. Quem será?! Aproximo a minha da sua horrível face. Mas, perante o meu espanto mudo, os olhos vítreos fecharam-se e a bôca emudeceu tambêm, selada por um cansaço infinito.

A maca segue e eu fico a olhá-la aturdido, quási com remorso. Aquela alma, a debater-se no fundo da sua agonia, esperava decerto uma palavra amiga de confôrto. Que chama de sofrimento lhe queimou a face se a não conheço? Sigo, mas a lembrança do desconhecido alanceia-me agudamente.

Subo de novo. Oficiais gaseados entram constantemente. Os dois primeiros já morreram de colapso cardíaco. Um tem na cara roxa de defunto uns olhos rubros de laca. Outros vêm, figuras lívidas, queimadas, farrapos e crostas de lama, cambaleiam, desabam sôbre as camas e depois que os despem ficam longamente sem falar nem bulir.

Há-os sacudidos de vómitos brancos, intermináveis.

− da minha bateria escapei só eu, − diz um.

E aquele que está sentado, com a cabeça entre as mãos e os olhos perdidos, repete com voz cava, falando consigo:

− Foi o Alcácer-Quibir do C.E.P….

Há-os tão inertes que parecem empedernidos de cansaço. Outros endoideceram de espanto.

O capitão Queiroz do 20 de Infantaria, amparado por dois soldados, avança todo encharcado em lama, negro, desvairado, pintado a sangue e pólvora. Tomo conta dele; faço-o despir, examino-o, dou-lhe os primeiros cuidados. Foi atingido e rasgado por estilhaços aqui e ali, numa perna, nas costas, no pescoço, e sufoca de gases. Como conhece o Frazão, que está ali perto e me auxilia, conta-lhe a batalha em gritos, anseios e gestos doidos. Mas dir-se-ia possesso daquela visão de inferno. Como alguêm escapo a um cataclismo, treme todo ainda do grande arrepio.

− Eu estava nas linhas, Frazão. Saíamos hoje de manhã. Às 4 da madrugada rompe um dilúvio de metralha tão formidável, como nunca vi nem sonhei. A tempestade de ferro durou horas.

Um do lado confirma, com os olhos dilatados:

− Eu vi, eu vi: Ao atravessar os campos as granadas caíam aos milhares! Alevantavam o chão todo! A terra fervia em cachão!

E êste:

− As aldeias ardiam como archotes alumiando a noite!

E aquele:

− Lembrava o Inferno, a terra toda a arder!

O outro agora ergue-se e avança, recua, esbraceja, pincelando a sua história num delírio.

− Depois ao vir da manhã atacaram. Atacaram em massa, às ondas, sempre em ondas, numa catadupa de homens. Só muito perto os vimos surgir do nevoeiro espesso da manhã. De nós os que ficámos, raros intactos, resistimos até à última. Houve cargas de baioneta. Uma fúria! Tu sabes: a cousa que mais detesto são os falsos heróis. Mas ninguêm, ninguêm faria mais. E tu conheces como estávamos cansados… A seguir abateram ou manietaram tudo à fôrça de número. Vi junto de mim, ali ao pé, oficiais alemães, pistola em punho, atirando sôbre os poucos que tentavam salvar-se. Eu próprio estive envolvido. Atirei sôbre um. Resisti. Furtei-me. O nevoeiro, o fumo da pólvora, a poeira levantada no ar eram tão densos, que pude escapar com duas ordenanças. Todo o meu terror era cair prisioneiro. Antes morrer, morrer mil vezes! Lá venho. Mas os caminhos tinham sido apagados pelos fundões dos rebentamentos e andámos de cova em cova, aos rebolões, errando. Logo, alguns passos dados, caio e zás! Fico enterrado até os ombros na lama dum dreno. Já me dispunha a morrer, a ficar ali, sem fôrças para mais. E os meus homens, − como êles são dedicados! – teimaram, que não arredavam pé e, à fôrça de pulso, arrancaram-me  ao charco. Lá vim, de trambulhão, caindo aqui, alêm me erguendo, no meio da tormenta. De comêço, ao rebentar das granadas, inda me lançava a terra; depois, perdido, cortando os campos ao acaso, ferido, exausto, cambaleante, nem as ouvia, nem me importavam, insensível ao perigo.

Êste homem não cança de falar. O furacão da batalha entrou lá dentro, açoutou-lhe os nervos e a sua emoção despenhada rola e corre, sem parança. Ajunta traços novos: os feridos mais graves, que ficam à beira dos caminhos, de pernas jarretadas, nadando em sangue, à espera da morte.

Alguêm pergunta:

− E onde estão os boches?

E êle:

− Não sei: em La Gorgue, em Laventie… no diabo… Os nossos resistem em muitos pontos da Village Line. E encontrei batalhões de escoceses, os que haviam de render-nos, marchando para lá, magníficos, a cantar.

Um enfermeiro vem e diz-me que um oficial ferido, há pouco chegado, me pede para ir falar-lhe.

− Onde é?

− No pavilhão, ao pé da capela do hospital.

Desço ao parque. A multidão peja o recinto.

A ressaca furiosa da batalha vem ali bater às golfadas, e espadana, volteia, ruge como as ondas, dentro do Mar.

Desde a manhã raras granadas caíam nestas paragens; mas agora ao começo da tarde afluem umas trás doutras, e, aqui e alêm, desabam explosões, emquanto as shrapnells de 15 ribombam sôbre o hospital.

As ambulâncias automóveis entram, correm, partem de novo ou estacam e arfam trepidando. Paro desnorteado. Para lá dos meus olhos baços vai um formilhar de espectros, que desemboca dos carros fundos, sopesa macas, e se dispersa ou choca em redemoinhos e grita, comanda, ulula.

Entro no pavilhão e busco com o olhar algum rosto conhecido. As granadas caem, estoiram lá fóra. Logo à entrada, dentro duma cama, vejo um homem em quietação extrema. Só a face, cujo tom plúmbeo ressalta na brancura do lençol, narra uma dôr horrível.

Os olhos estão cerrados, mas a contractura violenta dos masseteres, o latejar das têmporas e o premir raivoso dos beiços, de comissuras caídas, dizem o esfôrço de não gritar. É o capitão Almiro de Vasconcelos. Um enfermeiro conta-me em voz baixa que tem uma coxa esfacelada.

As camas estão cheias.

Então lá do meio um gesto brando acena-me. Avanço até ao leito, donde sai um meio corpo inquieto e uma cabeça de face inchada, os queixos atados, deixando ver junto da bôca o extremo duma larga ferida. 

Custa-me reconhecê-lo, tão deformado e branco tem o rosto. É o alferes Jaime Leote do Rego. E baixinho, que o bulir dos lábios abre-lhe dôres na face, conta-me o seu caso.

Noite ainda, marcha para a frente, a restabelecer as ligações telefónicas. Já alguns ingleses abandonam as baterias esfaceladas. E êle continua na sua faina, em meio da tempestade, arrostando longo tempo, no cumprimento terrível do dever, o vendaval de ferro e fogo, até que um estilhaço lhe rasga a face desde a orelha à bôca. Duas horas tem que andar a pé, esvaindo-se em sangue.

Lá fora e perto uma granada estoira com violência. Um sacudir convulso de paredes. E o moço herói, agora aniquilado, com inquietação febril, agarra-me na mão e pede que o não deixe, se acaso evacuarmos o hospital.

Vou saber, − digo-lhe; − e ao sair, acaba de se espalhar, veloz, a ordem de evacuação. Todos os doentes ou feridos que andem pelo seu pé, por grave que seja o seu estado, teem que abandonar o hospital e seguir para as ambulâncias da retaguarda, a mais próxima das quais está dali a três léguas. Os outros, os feridos de gravidade, hão de sair pouco a pouco nas ambulâncias-automóveis.

Como a tarde cai rapidamente e já se ouvem as granadas de pequeno calibre, prenúncio de que a batalha se avizinha, e os automóveis carream para ali novas de horror e faces de tragédia, o clamor, a angústia, o redemoinhar precípito da turba decuplicou.

Mais um automóvel com feridos.

São os homens patilhados da brigada do Minho. O capitão Franco esfarrapado, coxeando, côr de cera; o tenente Branco com a cara e as mãos queimadas, em carne viva, e outros, outros ainda. Dentro do automóvel, em viagem, um estilhaço veio matar um dos feridos.

Encontro-me com o Frazão. Temos que sair quanto antes. A noite e os boches estão perto. Os corações das gentes batem com o ritmo espantoso da tragédia. Algumas levas abalaram já e a estas horas seguem pelas estradas. Conto-lhe do Leote. Temos de ir lá, e vamos os dois falar-lhe. Êle sabe já. Mas os ecos surdos ou violentos das explosões incessantes, o receio de ficar para ali abandonado ou sepulto em escombros, na noite e na catástrofe, acendeu-lhe o desejo de viver numa fogueira de aflição. E, pois que se esvasou em sangue e lhe encheram os vasos de estimulantes para lhe manter o coração, tomou-o uma embriaguez louca. Tenta erguer-se, agarra-se-nos, e suplica-nos, com gestos desvairados, que o não deixemos ali.

− Mas como, − dizemos nós, − se está exangue, sem fôrças e aos primeiros passos vai cair por terra?!

− Não! Não me deixem! Não me deixem! Vou amparado. Vocês seguram-me, verão… Eu posso…

O escuro da tarde já invadiu a sala. Há vultos que lutam, peito a peito, com a sombra e o pavor. E eu vejo apenas alumiando http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=8679aquele fantasma estrebuchante os dois olhos fixos, a arder, como carvões acesos.

Pam… Pam… Boum… fazem lá fora as granadas. E êle quere saltar, ir comnosco. Debate-se, alteia-se, crispa as mãos, como um afogado, prestes a afundar-se.

Está doido, está bêbado de pânico…

Eu que já conheço, por experiência própria, aquele estado de terror, que segue as grandes quebras físicas, em casos tais, sofro com angústia da minha piedade impotente.

Saímos. É forçoso abalar. No parque gente chama, corre, dá ordens. Os automóveis veem, voam, partem; a noite aguilhoa o movimento da turba vertiginosa.

Eu, o enfermeiro Baldaia, o meu impedido, o tenente Frazão e outros oficiais partimos num grupo. Ao sairmos, uma granada cai perto. Alguns soldados lançam-se por terra, e o Frazão increpa-os com escárneo, dizendo para lá das palavras o seu espanto de que àquela hora alguêm tenha ainda o receio de perder a vida.

Na estrada vamos engrossar o longo cortejo dos que retiram: − farrapos de regimentos, famílias de civis com as crianças ao colo, carretas conduzindo os restos dos lares, trabalhadores chineses, e, em grupos soturnos, soldados portugueses, ingleses, australianos, tudo numa torrente apressada, silenciosa, devorada pelo drama comum.

Atrás afogou-se na sombra o palácio dos doidos, dos cadáveres, dos mártires, dos moribundos, erguido à beira do rio humano, como um genial monumento de aflição.

Vamos, como feras acossadas por um incêndio, olhando de vez em vez para trás com olhos endoidecidos pelo espanto. Vamos levados, impelidos, arrastados, como coisas inertes na catadupa dolorosa. Andamos horas. Sigo amparado, vacilante, esfrangalhado.

A névoa, a noite, a fome, a fadiga, a cegueira, que de novo me empana os olhos, o surdo estrépito da caravana maldita galgando os caminhos, aquele potenciar constante de misérias e dores já me alucinam.

Que verdade?! Que pezadelo?! Que sonho hediondo é êste?!

E um desejo desesperado se enraíza cá dentro de juntar as derradeiras fôrças para numa revolta última, atirar-me à valeta e ficar ali até que a morte me salve.

Memórias da Grande Guerra (1916-1919), Porto: edição da «Renascença Portuguesa», 1919, pp. 200-214


Jaime Cortesão (1884-1960) esteve na Flandres como capitão-médico voluntário. Memórias da grande Guerra (1916-1919) foi reeditado em 2016 pela Direcção de História e Cultura Militar e a Quartzo Editora, com um estudo introdutório de Margarida Portela. Viseu: Direcção de História e Cultura Militar, Quartzo Editora, 2016